Pequenos milagres de São Serafim de Sarov

São Serafim de Sarov

 

Ao alvorecer de uma manhã de Setembro, quando o sono do preguiçoso é especialmente doce, o telefone tocou alto no meu apartamento. Do outro lado da linha uma sala suave me indagou : "Sexta-feira virá o Anjo, você está pronto?" Um turbilhão de emoções e pensamentos invadiu minha mente ainda entorpecida pelo sono. Que anjo é esse meu Deus, será o Anjo da morte? Porque na sexta-feira?... É para estar pronto para o que? Será um contato extra-terrestre ou uma brincadeira...

Rápidamente tudo se esclareceu. É o ieromonge Mitrofan, ele está conferindo minha ida para Divevo, para onde devemos levar os peregrinos gregos : tia Christula e o seu sobrinho Anjo, isto é, Ánguelos, um nome grego. Meu coração amoleceu quando o Padre Mitrofan me contou sobre esses gregos. Eles tinham tamanha fé na proteção e intercessão do bem aventurado Serafim de Sarov que vieram à Rússia especialmente para reverenciá-lo e rezar no local das suas santas relíquias.

E eu, que tantas vezes rezei a ele diante de seu ícone, implorando - Meu amado batiuchka, quando afinal terei oportunidade de visitá-lo lá em Divevo... - Pois agora, através dos lábios do Padre Mitrofan o próprio São Serafim estava me convidando para ir ve-lo. 

Na manha seguinte gostariamos de comungar, portanto era imprescindível ler as orações preparatórias para a comunhão(Právilo), mas a luz foi desligada. Os peregrinos exaustos dormem um sono profundo. Fico imaginando onde posso ler as minhas orações e eu mesmo respondo que não há lugar. Então me defendo, Deus irá resolver para mim, de manhã haverá tempo... E assim vou adormecendo. De manhã, na correiria, é claro que não houve tempo para ler as orações.

Caminho para a primeira liturgia da manhã, na Igreja de Kazan, desgostoso comigo mesmo, pois não estou pronto para a confissão. Dentro da igreja, o Padre se mostra rigoroso, aprece até que está falando comigo: "Quem não leu as orações para a comunhão nem pense em querer comungar". E eu, que jejuei a semana inteira, ah como eu gostaria de fazer minha confissão em Divevo...

Senhor Jesus Cristo! Padre Serafim... Tento rezar. Sei que sou culpado, mas por favor, façam um milagre! Eu preciso receber a comunhão, tem que ser aqui em Divevo! Mas recomponho a minha humildade, que seja feita a Tua vontade.

No silêncio da Igreja ressoa forte o telefone. Pela conversa consigo entender que algo está errado com a primeira liturgia, o severo batiuchka precisa sair com urgência. Segue-se uma agitação, as monjas caminham de lá para cá, telefonemas, cochichos combinando a vinda de alguém. Eis que parece um favorável prenúncio, pois apareceu o tempo necessário para ler as orações e me preparar. Corri para pegar meu livrinho.

A misericórdia cai sobre os pecadores arrependidos. Consegui ler tudo até o momento da chegada do padre subistituto.

Essa confissão foi especial para mim. O Padre estava receptivo comigo, como se eu fosse da sua família e me confortou. Fiquei impressionado com tamanho amor ao próximo que ele tinha para dar. Onde está a origem deste amor todo ? Como pode uma pessoa como ele, que ouve confissões não ficar decepcionado com as pessoas e não odiar a essência pecadora do ser humano ? Ele não deteriorou o sacramento da confissão, não transformou-o em uma pura formalidade. Ele ouviu longamente e não me interrompeu. Por fim, usando o exemplo dos santos Pais e da experiência própria me esclareceu meus erros e apontou caminhos que levam a salvação.

Eu comentei em particular, sobre a minha dificuldade em aguentar de ter à minha volta um ambiente contra-Deus, como deboche e zombaria em relação a mim e a minha fé. "Eu fui perseguido e você também será perseguido", falou emocionado o Padre e deteve-se pensativo. Eu reconheci de imediato as palavras do Senhor e com humildade e pavor sentia a SUA presença. Estremeçi. "Então nós também seremos perseguidos!" O Padre me contou que tinha sido militar e por todo o tempo de serviço nunca na vida tomou um copo de vodka, nem fumou um cigarro, não se permitia a nada de errado. Rezava em segredo e não mostrava sua fé a não ser para Deus, eram tempos ruins.

E agora ele era ieromonge. "Veja o peixe, ele vive no mar salgado mas não se torna salgado" Assim falava o batiuchka, cheio de amor fraterno. "É assim que você deve ser. Você vive na lama, mas não se suje nela. Se você porventura tropeça e cai, se apresse em se levantar, limpe-se, arrependa-se diante de Deus. Nós ortodoxos devemos nos salvaguardar na pureza, e a pureza já é meio caminho para a salvação." Essas palavras do meu confessor, se firmaram fortemente no meu coração, pela simplicidade e ao mesmo tempo porque continham muita força interior. Na minha viagem de volta para casa, as palavras se repetiam em modulações : "O peixe do mar não se torna salgado, o homem na lama não se suja".